Pela educação, por um planeta melhor e diversificado e contra a estupidez. Seja bem vindo!
 
 
 

A pitonisa

O homem, após seu banho ritual, com a preocupação a roer sua alma, finalmente colocou-se em posição para perguntar à Pitonisa. Com gravidade, perguntou, mas não obteve resposta. Ele não acreditou no silêncio, mas o tempo havia terminado e com ele as possibilidades de obter o que desejava. De repente, havia um peso em sua alma, e um coração que se negava a aceitar o que acontecera. O momento já passara, e tudo parecia estar caminhando rápido demais. Já na estrada que o afastava de Delfos, seus pensamentos não o abandonavam. Afinal, não tinha sido digno de receber uma resposta? Afinal, o que ocorrera, buscando uma alternativa que pudesse aplacar a sua angústia. Quanto tempo, quantos sacrifícios e angústias o acompanhariam até que houvesse uma nova oportunidade ou o Destino encaminhasse o que o levava em turbilhão até Delfos? A cidade sagrada já estava há pelo menos três horas de distância quando a estrada tornou-se um manto noturno, sem que ele percebesse, absorto que estava em suas inquietações. De súbito um vento congelante alcançou-o e com ele a Morte. Entendeu, por fim, porque a resposta não viera, mas nada poderia fazer, nenhuma alternativa o alcançaria. Àquela altura, a insensível Átropos já havia cortado o fio de sua vida.

 
 

Herói

Herói

Sou um herói, e isso me basta. Não necessito nem quero ser um super-herói. Sou filho de Deuses, mas igualmente sou humano, e por isso penso que ser um super-herói é um exagero, quase um sacrilégio. O que é ser um super-herói, senão ser um personagem que não pertence a lugar algum? Meus pais são Deuses, meus vícios são humanos, e parte do que sou é herança divina.

Muitos dizem que sou um mito, que não sou real, porque não me concebem dentro da herança que receberam muito depois que eu conhecesse o mundo inferior e superior. Destruíram nossas verdades, mentiram sobre as vestais, e parece que nada que não seja do Triunvirato merece respeito, como se ele próprio não fosse um mito.

De todo modo, Cronos, o Senhor dos Tempos, nos aponta as portas do mundo. É preciso esperar um pouco mais, o suficiente para que retornemos ao coração dos homens e às suas habitações.

 
 

Gol!!!

A bola foi alçada por sobre a área, vinda de um cruzamento da ponta esquerda. Perfeita, a parábola encontrou a energia e o ponto exato da cabeçada de Martim, e o gol estava feito.

Ela, a parábola, a matemática perfeita, um elemento sincronizado com a corrida do centroavante, o momento em que o jogador se impulsiona no ar, um instante de comoção em que tudo fica momentaneamente paralisado, aguardando o desfecho, a cabeçada orientada no sentido do gol, o lançamento que preparou a parábola, a certeza do cabeceio para que a bola ultrapasse a linha de gol, tudo isso é visto, acompanhado, observado por milhares de pessoas no estádio. Olhos costuram o momento em que o lateral alça a bola na área, olhos que imitam detectores de movimentos suaves e bem elaborados, mentes que antecipam o prazer da vitória, da glória, do gol. Nada que se compare a isso, nada que seja a tal momento paralelo.

Gol! Gol! Gol! Gol! E assim infinitamente Gol!

Houve uma explosão de alegria no estádio, e parecia que tudo tinha adquirido novas cores. Matar o adversário com um gol aos quarenta e três do segundo tempo era absolutamente diferente de iniciar uma partida já ganhando. A onda de contentamento, de pulos, de gritos, de histeria coletiva espalhou-se. Eu estava lá assistindo, e fui um daqueles que disse palavrões, que berrou, que abraçou-se a quem estava do meu lado. De repente, em um átimo, todos somos iguais, o advogado, o pintor, o executivo, o professor, o pescador, o motorista, as pessoas gordas, bonitas, feias, altas, magras, tudo e nada importa, a não ser o momento mágico de comemorar, de gritar ao mundo o seu orgulho, a sua satisfação, pouco importando o que irá acontecer depois, na vida de cada um dos torcedores. O gol é o momento mágico, e vê-lo, algo que transcende a todas as outras análises da vida regrada, séria, comportada, obrigacional, aquela outra perspectiva que requer reuniões, horários, roupas apropriadas, sínteses, jogos de poder, políticas de alto nível ou de alta pataca.

“Dane-se!” é o que diz o gol vencedor para o resto das vidas chinfrins, acossadas, limitadas em amores, em dinheiro, em compensações e frustrações. É o momento em que o guerreiro, finalmente, sacrifica o seu rival, em que os amantes mais se deliciam e se enroscam, é o instante em que o grito pode dar-se como primal.

Jogos de futebol, ao contrário do que costumamos dizer, não são batalhas, não são guerras, ou se lembram tais eventos, tudo fica no campo da metáfora que, contudo, é interessante, é uma emulação maravilhosa. São onze guerreiros contra os outros, e aqueles são os do timinho, os que estão lá afrontando a nossa capacidade de derrotá-los e, portanto, se expondo aos nossos xingamentos.

Eles, os inimigos querem invadir nossa casa, como estranhos que são. Times adversários são aqueles que querem que não sejamos campeões, que não sejamos os melhores e, portanto, temos o direito de mostrar-lhes que, em nossa casa, mandamos nós.

E se perdermos, bem, são coisas da vida, são as irritantes visitas impróprias, são os mal temperados caprichos do destino, enfim, podemos até achar que o outro time realmente jogou melhor, mas isso só nos faz retornar para uma nova demonstração de que, querendo ou não, os outros são os outros, e nós, os melhores.

 
 

Memórias

Memórias. Todos as temos, mas nem sempre serão fonte de prazer, de riso, de alegrias. O que guardamos em nós não são lições edificantes, ou pelo menos não o são sempre. Então, se queremos escrever sobre memórias, o melhor é que façamos um pacto decisivo: ou publicamos a verdade ou a mascaramos, não só para nos pouparmos mas, igualmente, para pouparmos os demais que tiveram a ventura ou desventura de participar das mesmas.

Ao escrevermos memórias, temos de ser piedosos, mas não indulgentes.

Sempre carregamos em excesso nos sentidos, nos sentimentos, nas culpabilidades, como se fossemos juízes equidistantes do que já sucedeu. Ao escrevermos, podemos pensar que, se fosse hoje, teríamos tal ou qual ação ou reação, e a partir daí, teremos a tendência a julgarmos aposteriori. De todo modo, escrever sobre este tema acaba por passar por um exercício de ficção, por um romance. Estamos, de certo modo, falando sobre o que desconhecemos. Por outro lado, autobiografias podem levar à autocontemplação, o que é mais do que esperado.

Há pessoas importantes, ou assim entendidas, cujas memórias devem trazer no mínimo traços que provoquem inveja, ou os sentimentos do poder e da glória. Não nos atrevemos a lançar sombras sobre os ícones. Eles que assim permaneçam, totens de nossas imagens mentais. O contrário disse é degradar alguém, ou sua obra, ou acotovelar a memória em escaninhos estéreis. De todo modo, não é fácil sequer que determinadas lembranças aflorem: menos ainda, sermos intelectualmente honestos.

Quem se habilita?

Quem quer por alguém como se herói fosse, como se líder fosse, quem quer fabricar ou autofabricar imagens, cenários, alter egos? Por fim, qual a vantagem disso tudo, senão a de sabermo-nos todos humanos, sujeitos, portanto, às curvas mais ou menos suaves dos nossos destinos? Quem nos fornecerá o passaporte, já que Alice desapareceu, há tanto, para seu país, que, aliás, não é exatamente o das maravilhas?

 
 

Em nome de Deus

A relação do homem com Deus anda muito complicada, diria que, no mínimo atendendo a preceitos capitalistas. Em outros termos, parece que a criatura cobra do criador o fato de ter sido pelo mesmo criada. O filho exige do pai coisas que são insensatas.

Pais sabem, no fundo, embora disfarcem ou se refugiem para isentar-se, que, em verdade a vida dos filhos é obra deles, filhos. É claro que os pais responsáveis e amorosos procuram, por todos os meios, ensinar aos filhos, dar-lhes os exemplos, mostrar-lhes quais as diferenças entre os caminhos a abandonar e a seguir. No entanto, haverá um momento em que o filho não mais verá seus pais como heróis, como as únicas referências em suas vidas. Filhos amadurecem ou não, estudam ou não, trabalham ou não, mercanciam ou não mas, de todo, filhos crescem. E, ao fazê-lo, buscam sua independencia, senão plena, ao menos discursiva. Há mesmo um momento em que filhos pensam que pais atrapalham suas vidas, o que se não é uma mentira deslavada, também não é uma verdade absoluta.

Somente mais tarde filhos entenderão os pais. Tempus regit actum, diriam os romanos. No entanto, quando se pensa metaforicamente em Deus, a sua imagem institucionalizada é a do Pai, um Pai Maior, assim, em maiúsculas. E, sendo assim tão Onipotente, Onisciente, Criador, os pais e filhos terrenos, crendo-se suas criaturas, passam a querer que o Pai lhes dirima as dúvidas, os afaste dos obstáculos, lhe providencie uma vida boa, saudável, longa e frutuosa, um perdão em todo redimidor das faltas cometidas e um séquito de desejos e pedidos infindáveis e por vezes inalcançáveis.

Ao instituir Deus, as religiões oficiais e oficiosas instituiram também a Benção do Arrependimento. Tudo é possível desde que nos arrependamos sinceramente do que fizemos. A Benção do Arrependimento é a grande borracha que apagará nossos limites do consciente e do inconsciente. É a nossa Fenix rediviva, é o nosso encontro com os Deuses. A Benção, portanto, é o caminho que perseguimos diariamente. Como sempre, continuamos sem alterar uma vírgula os nossos comportamentos, as nossas idiossincrasias, os nossos ódios, as nossas pequenas e grandes vilanias, pois possuímos, escondida em nossa cartola de coelho o momento do arrependimento primal.

Enquanto isso, requeremos a Deus, solicitamos a Deus, imploramos a Deus, nos martirizamos em nome de Deus, nos suicidamos em nome de Deus, matamos em nome de Deus, provocamos guerras e extermínios em massa em nome de Deus, rezamos homilias eternas em nome de Deus, nos sacrificamos a nós e aos demais em nome de Deus, ateamos fogo em nome de Deus e, talvez o pior de tudo, cremos ou mentimos crer que há pessoas especiais, iluminadas, que falam institucionalmente em nome de Deus. De certo modo, convenientemente nos associamos às mesmas, com a esperança de que sobrem, afinal, alguns lucros em meio à tanta dedicação. Talvez por isso enriqueçamos tanto os esclarecidos, os que falam A Palavra Divina.

Somos filhos que não crescemos, somos eternamente infantis, somos especialmente manipuladores. Deus, efetivamente, não pode nos tratar como adultos. De certo modo, somos pífios e, assim sendo, não nos compete querer mais do que, como crianças desamparadas, acorrermos aos seus Braços pedindo perdão para fazer exatamente igual depois. Ao jogar tudo em Deus, nos divorciamos da realidade, do que podemos fazer, esquecemos que temos livre arbítrio e de que, para o bem ou para o mal, construímos nossa casa.

Somos, ao tudo e ao cabo, regentes de um mundo que, invariavelmente nos ameaça, nos fustiga, nos tem como reféns. Fomos nós que o quisemos assim, que o fizemos assim, enquanto, entre lágrimas e arrependimentos, nos fartávamos do nome de Deus, justificativa para todos ou quase todos os crimes que, invariavelmente, cometemos.

 
 

Para Francisco P.M.

Pai, isso é o que gostaríamos de dizer-lhe em despedida.

Deus foi tremendamente bom para todos ao dar-nos o pai que nos deu. Nunca tivemos nada do que nos queixarmos, somente orgulho. Acreditamos que seus amigos e parentes aqui presentes diriam o mesmo e nossa mãe também não reclamaria nada do marido que teve.

Você começou tudo pelo coração. Nos fez grandes quando ainda éramos pequenos. Incutiu em nossas cabeças o trabalho, a garra, a coragem, a determinação, nos fez crer que somente trabalhando teríamos uma vida digna. Você, com seu jeito, coloriu tudo e a todos e ainda nos ensinou a escolher a cor (as boas amizades).

Deixou para nós esta dádiva estimável que foi o desejo e a alegria pelo ttrabalho. Isto nos excitou à ação muito cedo.

Você não admitia obstáculos, estava sempre disposto para o trabalho. Nunca o vimos queixar-se de estar sentindo-se cansado ou com algum problema que o impedisse de trabalhar. Você tinha um apego a formalidade, ao trabalho e à perfeição, de fazer inveja. Você era ilimitado. E esta é uma dádiva especial que Deus concede a poucos homens. Você era um deles – inteligente, manso, lobo feroz, cordeirinho… Devemos tudo a você: bom pai, bom amigo, um homem de um caráter raramente encontrado…

Sua obra é motivo de orgulho para todos nós e as lágrimas que aqui derramamos é por não nos conformarmos que seus dias de trabalho não chegaram ao fim. Você não parou de trabalhar. Foi colhido na rua por um automóvel que lhe tirou a vida, trabalhando, de uma forma muito cruel (diferente da maneira de como você nos preparou – desde pequenos o ouvimos dizer que só “viajaria” quando estivesse bem velhinho. E você estava tão saudável ultimamente!) então, como nos conformarmos com isso?

Lamentaremos muito as coisas desprezível que lhe dissemos alguma vez em uma discussão ou debate e nunca tivemos a oportunidade de nos desculparmos. A verdade para nós é que você está indo muito cedo. Mas é isto, aceitaremos o que Deus nos oferecer e dedicaremos cada dia de trabalho à perfeição do que aprendemos contigo. Tudo que você nos ensinou permaneceu em nossos corações e continuará sempre a nos inspirar.

Faça uma boa viagem, pai. O Parque da Paz é um lugar muito bonito, mas não se compara ao lugar onde você está indo morar. Vá pelo lado da sombra, proteja-se e não esqueça seu chapéu. Durma com os anjos, herói. Forre o nosso lugar e nos dê a mão, mais uma vez, quando um de nós lá chegarmos. Nosso carinho. Nosso adeus.

Seus filhos

cinco de março de 1989.

 
 

Pendulo

Quando digito, o pensamento vaga, se solta, nem sempre se tenta admitir como tal. Controlo o que posso, tento explicitar exatamente o que quero escrever, mas não consigo; por vezes a ficção me trai e me expõe como sou ou como gostaria de ser. O ficcionista pode brincar de ser assassino, de ser ralé, de ser anjo, de ser feminino, de ser solitário, de ser um míssil, pois tudo escoa sob o manto de sua – por vezes desvairada – imaginação. Nada é tão inverossível quanto a escrita, desde que ela não seja pública, sorumbática, discursiva. As vidas não são memorandos, então viva a tragédia, o romance, o inusitado, o prenhe, o absurdo!

Podemos criar seres mitológicos, podemos criar mundos, podemos destruir ilusões, fabricar ironias, lidar com o infinitamente menor e com o que se nos avizinha de medos, de frustrações, de desejos,  podemos criar sentimentos, cenários, confusões, humores, amores, tudo, tudo em favor da escrita e do sentido em que ela opera. Personagens que crescem, partos que se sucedem, histórias malresolvidas, olhos de lassidão, tudo cabe quando estamos assim, sós, cavaleiros quixotescos empunhando teclados, manejando canetas, manipulando lápis, deixando fluir os pensamentos que convivem dentro de um espaço particular, privado, ousado, como uma mente que é individual, mas que também é coletiva, porque a vida é plural.

Nossos ressentimentos, nossas mentiras, ideias, idiossincrasias, pontos de fuga, nosso rufianismo e violências podem estar aqui, comprimidas em uma linha, em um parágrafo, em uma palavra. Não sei quem criou a criação, mas, em tudo o criador abriu espaços para que nos movamos em direção àquilo que quisermos, ao frio, ao calor, à tepidez.  A escrita é um pouco assim, movimento, vontade de dizer, vontade de calar, um pouco de mudez, sempre que necessário for. Escritores são assim, um pendulo em constante movimento.

 
 

Futebol, by Luis Fernando Veríssimo

O prazer de acertar

um chute no ângulo da goleira

Qualquer goleira

O que pode se comparar

na experiência humana?

De onde vem isso?

Que tipo de amor é esse?

Um mistério

Talvez o que a gente ame no futebol

seja o nosso amor pelo futebol

Talvez o que a gente ame

seja justamente o mistério

Luis Fernando Veríssimo

 
 

Assim, flutuo

Não foram poucas as vezes em que o tempo escorreu entre os meus dedos, em que a vontade não foi suficientemente grande para que eu pudesse enfrentar aquilo que me afrontava. Reconheço agora, com o passar das oportunidades, o que em minha vida se fez poeira, o que declinou em mim, inclusive posso ter a nitidez de que, embora em meio a muitos, cada vez mais eles diminuem, findam por se ausentar. No final da minha vida estarei só, da mesma maneira em que ingressei no mundo. Minha morte será então um exercício de descoberta. Por ora, aferro-me à vida, como quem se nutre de sua própria necessidade. Importa viver, importa fazer, e, dizem alguns, minha vida é valiosa.

Caí muitas vezes no conto ácido e espesso da paixão, e dela, francamente, até hoje não me desencantei, pois muitos dos prazeres que tive tiveram ali a sua origem. Paixão pela paixão, pelo desejo puro e simples, mas com o decorrer dos anos, percebi que sorrisos de amigos sumiram, simplesmente porque eles, os amigos, igualmente o fizeram. Me dei conta do que os outros esperavam que eu fizesse, como queriam que eu me comportasse, como desejariam que houvesse um padrão muito nítido no que faria ou deixaria de fazer e, por outro lado, como os contrariei, como os deixei insatisfeitos. Decorrências da própria paixão, por um lado, e da inadequação por outro.

Lutei muito, mas não venci, pelo menos até hoje, a expectativa daqueles que me amam, pois as exigências são de diversas ordens, e eu não dou conta delas. Sou crítico, abusivo, por vezes destemperado, mas me ponho ao par dos meus conflitos. Talvez me amem apaixonadamente ou me odeiem com um certo lustro de raiva mal disfarçada pela educação.

Sou um ponto flutuante, não tenho as características das certezas absolutas, e nem sou dono de convicções irretorquíveis. Simplemente flutuo, mas as vezes o peso de tudo me faz tão denso que desabo, que não há força que me mova, que me altere o ritmo de lassidão. Não tenho medo do futuro, não renego o que passei, sequer de admitir meus incontáveis erros. Disse Seneca que é impossível nadarmos duas vezes no mesmo rio, fato que a física quantica confirmaria séculos depois.

Assim, flutuo.

 
 

Eu e o enxame

Este é um post antigo, mas merece ser publicado.

Ocorreu em 2009, por aí. Hilton.

Falo com uma colega a respeito de irmos para um evento, asConversações Internacionais sobre Educação promovidas pela Secretaria Municipal de Educação. Ela me pergunta que horas a escola liberaria os alunos para que os professores fossem assistir a inauguração do evento, no centro da cidade, hoje à noite.

“Às cinco da tarde, parece”, respondi.

Ela considerou que iria ao centro (onde ela mora) e teria tempo de “um lanche rápido” antes de estar lá no cais do porto (local do evento) as 19 horas. E eu, o que iria fazer? me perguntou.

“Vou pra casa, faço a barba, tomo um banho, faço um lanche, troco de roupa e vou”, foi o que disse.

Ela: “Mas aí você não vai estar lá às sete”, disse a controller.

Eu: “ A maioria dos colegas vai fazer isso; é muito ruim trabalhar a tarde inteira e ir para um evento sem tomar um banho, de barba por fazer e com fome. Além disso, há tempo suficiente”.

The controller: “Não, na EJA não, todos vão juntos”.

Esta última frase teve um objetivo sentencial.

De repente muita coisa ficou clara, o porquê de me sentir, muitas vezes, inadequado e desconfortável na escola. Nada como prestar atenção ao cotidiano. No livro “Vida para consumo”, S. Bauman, em sua habitual acuidade fala a respeito de um conceito que serve justo como uma luva na situação descrita: o conceito de enxame.

Para o autor, o enxame “…não são equipes, não conhecem a divisão de trabalho. São … agregados de unidades dotadas do autopropulsão unidas unicamente …. pela solidariedade mecânica”, manifestada na reprodução de padrões de comportamentos semelhantes e se movendo numa direção similar”. …  “Os enxames, de maneira distinta dos grupos, não conhecem dissidentes, nem rebeldes – apenas,  por assim dizer,  ‘desertores’, ‘incompetentes’ e ‘ovelhas desgarradas’. As unidades que se desviam do corpo principal durante o voo apenas ‘ficaram para trás’, ‘perderam-se’ ou ‘cairam pelo caminho’.” Em um enxame ” não há intercâmbio, ou cooperação ou complementaridade, apenas a proximidade física e a direção toscamente coordenada do movimento atual.”

Ora, se ao conceito de enxame acrescentarmos o de panóptico,  um centro de controle e de vigilancia full time, onde o observado tem suas ações e inações contabilizadas como em um banco 24 horas, que credita pontos positivos e debita desvios comportamentais, entenderemos um pouco do meu desconforto.

Em minhas vivências, embora muitas vezes – na maioria, presumo, não tenha conseguido alcançar meus objetivos, sempre busquei privilegiar a inteligência interpessoal, o que, entendo, é uma forma de arte. Divorciado do comportamento gestor busquei sempre alternativas humanas de me relacionar com terceiros, fossem pessoas de carne e osso, fossem instituições. Não me arrependo, nem creio que deva ser diferente. No entanto, o enxame me aborrece profundamente.

Eu não me adapto àquele, não sou autopropelido, abomino seguir ordens quando quem as dá não tem capacidade  para tanto. No caso, a minha colega se entende assim, o que me causa uma irritação maior.  Uma das características do imbecil é tentar impor sua vontade mas não ter experiência real suficiente para fazê-lo. A estupidez não respeita a inteligência alheia. Pelo contrário, quer produzir não grupos de trabalho, não equipes, mas simplesmente enxames.

O imbecil ou, no caso, a imbecil não se furta de dar palpites desastrosos e confundir conceitos. É-lhe necessário, a todo tempo e a toda hora, estabelecer ligações baseadas na fofoca, no desacato e nas pequenas e abundantes misérias humanas. O poder que possui é circunstancial, não respeitoso e absolutamente inócuo. Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade para conviver com tais personalidades. Na verdade eu as incomodo, não de modo proposital, mas por minhas posturas. Nada pior para um rebanho do que uma ovelha desgarrada. No meu caso específico, propositadamente.

Ah, sim, é claro que fiz o que disse que iria fazer, e cheguei por volta de 19 horas e trinta no evento, sem qualquer prejuízo, nem para mim muito menos para o evento, que mostrava painéis sobre educação. No entanto, a carcereira do panóptico deve ter anotado em seus escaninhos o meu débito, para cobrar a qualquer hora e em qualquer circunstãncia, de preferência a menos apropriada para tanto.

Não importa, não reconheço a minha dívida.